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Guias CarversoCombustível adulterado: o que os dados da ANP mostram e como se proteger
Quanto do combustível vendido no Brasil está fora da especificação em 2026, o que um combustível ruim faz com o motor, os testes que o posto é obrigado a fazer na sua frente e como denunciar.

"Gasolina batizada" é um dos medos mais antigos do motorista brasileiro. Os dados oficiais mostram que o problema ficou raro — mas não sumiu, e o consumidor tem ferramentas que pouca gente conhece. Este guia usa os dados abertos do monitoramento da ANP e as regras que os postos são obrigados a seguir.
O que os números de 2026 mostram
A ANP mantém o Programa de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis (PMQC): todo mês, postos sorteados têm amostras de gasolina, etanol e diesel analisadas em laboratório. Somando os dados abertos de janeiro a junho de 2026:
| Combustível | Amostras analisadas | Fora da especificação | Principal motivo |
|---|---|---|---|
| Gasolina (comum, aditivada e premium) | 10.740 | 0 | — |
| Etanol hidratado | 7.815 | 1 (0,01%) | aspecto |
| Diesel (S10 e S500) | 9.887 | 37 (0,37%) | aspecto (água ou impurezas) |
| Total | 28.442 | 38 (0,13%) |
Nas amostras de gasolina, os laboratórios verificaram teor de etanol, destilação, massa específica, enxofre, metanol e o marcador de solventes — que a ANP obriga a colocar nos solventes justamente para denunciar adulteração. Nenhuma amostra do semestre reprovou. No etanol, foram checados teor alcoólico, massa específica, pH, condutividade, metanol e presença de hidrocarbonetos. A lista de ensaios do monitoramento não inclui a octanagem.
Adulterado × não conforme: não é a mesma coisa
A ANP separa dois problemas. Adulteração é crime: alguém mistura solventes ou outras substâncias para lucrar. Não conformidade é quando algum parâmetro físico-químico sai da especificação, em geral por falha de produção, armazenamento ou manuseio — muitas vezes acidental. Segundo a agência, a maior parte dos produtos impróprios encontrados é do segundo tipo, e os dois índices caíram muito nos últimos 20 anos.
No diesel, o motivo de reprovação no semestre foi sempre o aspecto: o produto deve ser límpido e sem impurezas, e a presença de água ou sujeira reprova a amostra. É um problema de armazenamento que ganhou atenção com o aumento do biodiesel — a ANP tornou obrigatória a drenagem semanal do fundo dos tanques de diesel nos postos. Veja o guia diesel S10 ou S500 e o biodiesel.
O que um combustível ruim faz com o motor
Os manuais das montadoras descrevem os danos. O do Onix proíbe combustível com metanol, ferroceno ou anilina, que podem corroer peças metálicas do sistema de combustível e danificar plásticos e borrachas, e combustível com metais como o MMT, que danifica o controle de emissões e as velas; o mesmo manual alerta que combustível adulterado pode causar danos irreversíveis ao motor. O do Creta lista, para aditivos à base de metais e silicone, detonação, aceleração ruim, motor morrendo, dano ao catalisador e corrosão.
Sinais que merecem atenção logo depois de um abastecimento: motor falhando ou engasgando, perda nítida de força, luz de injeção acesa, consumo muito acima do normal e dificuldade de partida.
Seus direitos no posto
A cartilha da ANP para postos (revisão de maio de 2026) lista duas obrigações que valem para qualquer consumidor:
- Teste de qualidade na hora, a pedido do cliente: o posto é obrigado a analisar gasolina, etanol ou diesel sempre que o consumidor solicitar — massa específica e teor de etanol na gasolina, massa específica e teor alcoólico no etanol, massa específica no diesel, e aspecto e cor nos três.
- Conferência do volume: o posto deve ter uma medida-padrão de 20 litros aferida e lacrada pelo Inmetro, para verificar a bomba quando o consumidor pedir no ato do abastecimento.
- Termodensímetro na bomba de etanol: o aparelho fica instalado na própria bomba, com as instruções de leitura no corpo.
A cartilha informa ainda que o posto sem os equipamentos de análise pode ser multado em R$ 5.000 a R$ 50.000.
Como funciona o teste da proveta
É o teste do teor de etanol na gasolina, simples e feito na frente do cliente. Coloca-se 50 ml de gasolina numa proveta de 100 ml, completa-se com 50 ml de água com sal (10%), inverte-se a proveta dez vezes e espera-se dez minutos. O etanol migra para a água, e a camada de baixo cresce. O teor de etanol é o aumento dessa camada multiplicado por 2, mais 1.
Com a gasolina comum em E32 (32% de etanol, desde 1º/8/2026), a camada aquosa deve subir cerca de 15,5 ml — ou seja, ficar perto de 65,5 ml. Na regra do E30, a ANP aceitava 29% a 31% de etanol, uma tolerância de 1 ponto para mais ou para menos. Na premium, a referência é 25%. Um resultado muito acima do previsto indica etanol em excesso.
Achou algo errado? O que fazer
- Guarde a nota fiscal do abastecimento — ela identifica posto, data, combustível e volume.
- Peça o teste de qualidade ou a conferência na medida-padrão ainda no posto.
- Denuncie à ANP pelo Fala.BR, a plataforma oficial de ouvidoria do governo federal, informando posto, endereço, data e combustível. O Procon da sua cidade também recebe reclamações.
- Leve o carro a uma oficina de confiança se houver sintomas, e peça laudo por escrito caso precise acionar o posto.
Perguntas frequentes
- Quanto combustível adulterado existe no Brasil?
- No monitoramento da ANP de janeiro a junho de 2026, 38 de 28.442 amostras (0,13%) estavam fora da especificação: nenhuma de gasolina, uma de etanol e 37 de diesel, todas por aspecto (água ou impurezas).
- O posto é obrigado a testar o combustível?
- Sim. Pela cartilha da ANP, o posto deve fazer a análise de qualidade sempre que o consumidor pedir e ter uma medida-padrão de 20 litros do Inmetro para conferir o volume da bomba.
- Como saber se a gasolina tem etanol demais?
- Pelo teste da proveta: 50 ml de gasolina mais 50 ml de água com sal; o aumento da camada de baixo, vezes 2, mais 1, é o teor de etanol. Com o E32 em vigor, o esperado é por volta de 32%.
- O que combustível adulterado causa no carro?
- Segundo os manuais, pode causar corrosão no sistema de combustível, danos a plásticos e borrachas, falhas, perda de desempenho, danos ao catalisador e às velas e, no limite, danos irreversíveis ao motor.
- Onde denunciar posto com combustível ruim?
- À ANP, pela plataforma Fala.BR, com os dados da nota fiscal, e ao Procon da sua cidade.
Fontes
- ANP — Programa de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis (dados abertos, janeiro a junho de 2026)
- ANP — Programa de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis (como funciona)
- ANP — Gasolina (tipos, aditivada, não conformidade e adulteração)
- ANP — Cartilha do Posto Revendedor de Combustíveis (revisão de maio de 2026)
- ANP — orientações aos revendedores com a chegada do E30 e do B15 (21/08/2025)
- ANP — E32: gasolina com 32% de etanol passa a valer temporariamente (31/07/2026)
- Hyundai — manual do proprietário Creta (A1UO-PB2603A), recomendações de combustível
- Chevrolet — manual do proprietário Onix e Onix Plus 2027, seção Combustível