Listas / Guia de compra
Listas CarversoCarros que seguram valor: o que a FIPE mostra (e o alerta chinês)
Quais carros menos desvalorizam no Brasil, segundo a Tabela FIPE — e por que as marcas chinesas podem mudar essa régua. Com comparativos de mesmo preço.
Comprar carro é também decidir quanto você aceita perder. Entre o 0 km e a hora de trocar, alguns modelos devolvem quase tudo; outros derretem. Para medir isso sem achismo, cruzamos o valor da Tabela FIPE do 0 km com o do mesmo modelo usado (cerca de dois anos mais novo) e calculamos quanto cada um segura.
O resultado confirma uma crença antiga do brasileiro — e, nas entrelinhas, acende um alerta sobre o que vem por aí.
Os que mais seguram valor
Em torno de dois anos, estes foram os que menos perderam — ou seja, quanto do valor de 0 km o modelo ainda vale como usado:
| Modelo | Versão | Valor retido (~2 anos) |
|---|---|---|
| Honda HR-V | EX 1.5 | 84% |
| Honda City Hatchback | LX 1.5 | 84% |
| BYD Dolphin Mini | GS (elétrico) | 83% |
| Hyundai Creta | 1.0 Turbo | 82% |
| Fiat Fastback | 1.0 Turbo | 82% |
| Volkswagen Nivus | 200 TSI | 82% |
| Toyota Hilux | SRX diesel | 81% |
| Toyota Corolla | Altis 2.0 | 77% |
SUVs e hatches de Honda, Toyota e Hyundai dominam a lista. Não é sorte — e repare num detalhe: o elétrico BYD Dolphin Mini já aparece lá em cima, segurando 83%. Guarde essa informação.
Por que eles seguram: é confiança
Revenda alta é, no fundo, reputação. Quando o próximo comprador confia na qualidade do modelo e da marca — que vai rodar sem dor de cabeça, que tem peça, que a rede atende —, ele paga mais pelo usado. E essa confiança a Honda, a Toyota e a Hyundai construíram em décadas de mercado brasileiro. É isso que a FIPE está medindo: não só o carro, mas a tranquilidade que o nome carrega.
O alerta chinês
Esse jogo, porém, pode estar começando a virar. As marcas chinesas — BYD, GWM, Chery, Omoda — chegaram com tudo. E o que deveria tirar o sono dos tradicionais é simples: pelo mesmo dinheiro, o chinês entrega mais carro. Veja dois exemplos, com 0 km de preço praticamente igual.
Hyundai Creta × Chery Tiggo 5X Pro — mesmo preço
| Hyundai Creta2027 · Comfort 1.0 Turbo GDI Flex | CAOA Chery Tiggo 5X2027 · Pro 1.5 Turbo Flex CVT | |
|---|---|---|
| Preço FIPE (0 km) | R$ 133.249 | R$ 135.505 |
| Potência | 115 cv | 143 cv |
| Torque | 17,5 kgfm | 22,8 kgfm |
| Câmbio | Automática sequencial de 6 marchas | Automática CVT com 9 marchas simuladas |
| Consumo cidade | 12 km/l | 10 km/l |
O que o Tiggo 5X entrega que a Creta neste preço não tem:
- Multimídia de 20,5" (a Creta Comfort tem 8")
- Teto panorâmico com cortina elétrica
- Ar-condicionado dual zone automático
- Banco do motorista com ajuste elétrico e apoio lombar
- Câmera 360° (a Creta tem apenas a de ré)
- Carregador de celular por indução
- Mais potência (143 cv contra 115) e rodas de 18" em vez de 16"
O que a Creta guarda em troca não é pouco: o pacote de segurança Hyundai SmartSense — frenagem autônoma, permanência em faixa, farol alto adaptativo — que o Tiggo 5X Pro não traz. E a revenda. É essa a troca que o comprador faz.
Honda HR-V × Chery Tiggo 7 Pro Max — mesmo preço
| Honda HR-V2027 · EXL 1.5 i-VTEC Flex CVT | CAOA Chery Tiggo 7 Pro2025 · Pro Max Drive 1.6 TGDi | |
|---|---|---|
| Preço FIPE (0 km) | R$ 160.506 | R$ 144.785 |
| Potência | 126 cv | 187 cv |
| Torque | 15,8 kgfm | 28,0 kgfm |
| Câmbio | Automática CVT com paddle shifts | Automática de dupla embreagem (DCT) de 7 marchas |
| Consumo cidade | 13 km/l | 10 km/l |
Mesmo patamar de preço, e o Tiggo 7 ainda oferece 187 cv (contra 126 do HR-V), duas telas de 12,3", teto solar e câmera 360° — itens que o HR-V topo de linha não tem.
E isso nem toca nos híbridos e elétricos que os tradicionais ainda não respondem na mesma faixa: o GWM Haval H6 HEV (248 cv, câmera 540°, head-up display, bancos ventilados, atualização por OTA), o Omoda 5 (pacote ADAS com 15 funções, som Sony, 8 anos de garantia de bateria) e o BYD Yuan Plus (elétrico, 449 cv, porta-malas dianteiro). Coisas que, há dois anos, nem existiam nesse preço.
A conta da revenda hoje ainda premia quem já tem nome. Mas o brasileiro tem memória curta pra desconfiança quando o produto entrega — e os chineses estão entregando. Se mantiverem qualidade e rede por alguns anos, a lista de quem "segura valor" pode ganhar sobrenomes novos. O 83% do Dolphin Mini lá em cima é o primeiro sinal de que dá pra virar.
Os que mais caem (o outro lado)
- Renault Kwid — 67% em 2 anos: carro de entrada cai mais em percentual; quanto menor o preço, maior o tombo relativo.
- Honda ZR-V — 67% em 2 anos: a exceção Honda. Caro, só a gasolina e de nicho — o nome não salva um posicionamento difícil.
- Jeep Renegade — 64% em 3 anos.
- Picapes recém-lançadas (Fiat Titano, RAM Rampage) e híbridos novos (BYD Song Pro e King): modelo e/ou marca sem histórico deixam o comprador do usado inseguro.
Como pensar revenda na hora de comprar
- Troca de carro a cada 2–3 anos? Revenda é dinheiro de verdade — aí Honda, Toyota e Hyundai pagam de volta o "pedágio" da confiança.
- Fica muito tempo com o carro (6–8 anos)? A desvalorização pesa menos, e compensa aproveitar o que o chinês entrega de equipamento e tecnologia agora.
- Se revenda te importa, evite pagar caro em modelo recém-lançado: espere o mercado assentar o preço.
- E fique de olho: a régua da revenda está em disputa — os próximos anos dirão se os chineses entram nessa lista.
Metodologia e fontes
Cruzamos o valor da Tabela FIPE (referência de outubro de 2026) do 0 km com o do mesmo modelo usado — em geral o ano-modelo de cerca de dois anos antes —, dentro do catálogo de fichas do Carverso. A FIPE é a referência de mercado; o preço real de negociação varia conforme estado de conservação, procura e região. Os equipamentos citados vêm das fichas técnicas oficiais de cada montadora.

