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Carros que seguram valor: o que a FIPE mostra (e o alerta chinês)

Quais carros menos desvalorizam no Brasil, segundo a Tabela FIPE — e por que as marcas chinesas podem mudar essa régua. Com comparativos de mesmo preço.

ListaPor Redação CarversoAtualizado em 04 de out. de 20266 min de leitura

Comprar carro é também decidir quanto você aceita perder. Entre o 0 km e a hora de trocar, alguns modelos devolvem quase tudo; outros derretem. Para medir isso sem achismo, cruzamos o valor da Tabela FIPE do 0 km com o do mesmo modelo usado (cerca de dois anos mais novo) e calculamos quanto cada um segura.

O resultado confirma uma crença antiga do brasileiro — e, nas entrelinhas, acende um alerta sobre o que vem por aí.

Valor retido (~2 anos)

84%

Honda HR-V

Valor retido (~2 anos)

84%

Honda City Hatchback

Valor retido (~2 anos)

83%

BYD Dolphin Mini (elétrico)

Os que mais seguram valor

Em torno de dois anos, estes foram os que menos perderam — ou seja, quanto do valor de 0 km o modelo ainda vale como usado:

ModeloVersãoValor retido (~2 anos)
Honda HR-VEX 1.584%
Honda City HatchbackLX 1.584%
BYD Dolphin MiniGS (elétrico)83%
Hyundai Creta1.0 Turbo82%
Fiat Fastback1.0 Turbo82%
Volkswagen Nivus200 TSI82%
Toyota HiluxSRX diesel81%
Toyota CorollaAltis 2.077%

SUVs e hatches de Honda, Toyota e Hyundai dominam a lista. Não é sorte — e repare num detalhe: o elétrico BYD Dolphin Mini já aparece lá em cima, segurando 83%. Guarde essa informação.

Por que eles seguram: é confiança

Revenda alta é, no fundo, reputação. Quando o próximo comprador confia na qualidade do modelo e da marca — que vai rodar sem dor de cabeça, que tem peça, que a rede atende —, ele paga mais pelo usado. E essa confiança a Honda, a Toyota e a Hyundai construíram em décadas de mercado brasileiro. É isso que a FIPE está medindo: não só o carro, mas a tranquilidade que o nome carrega.

O alerta chinês

Esse jogo, porém, pode estar começando a virar. As marcas chinesas — BYD, GWM, Chery, Omoda — chegaram com tudo. E o que deveria tirar o sono dos tradicionais é simples: pelo mesmo dinheiro, o chinês entrega mais carro. Veja dois exemplos, com 0 km de preço praticamente igual.

Hyundai Creta × Chery Tiggo 5X Pro — mesmo preço

Hyundai Creta2027 · Comfort 1.0 Turbo GDI FlexCAOA Chery Tiggo 5X2027 · Pro 1.5 Turbo Flex CVT
Preço FIPE (0 km)R$ 133.249R$ 135.505
Potência115 cv143 cv
Torque17,5 kgfm22,8 kgfm
CâmbioAutomática sequencial de 6 marchasAutomática CVT com 9 marchas simuladas
Consumo cidade12 km/l10 km/l

O que o Tiggo 5X entrega que a Creta neste preço não tem:

  • Multimídia de 20,5" (a Creta Comfort tem 8")
  • Teto panorâmico com cortina elétrica
  • Ar-condicionado dual zone automático
  • Banco do motorista com ajuste elétrico e apoio lombar
  • Câmera 360° (a Creta tem apenas a de ré)
  • Carregador de celular por indução
  • Mais potência (143 cv contra 115) e rodas de 18" em vez de 16"

O que a Creta guarda em troca não é pouco: o pacote de segurança Hyundai SmartSense — frenagem autônoma, permanência em faixa, farol alto adaptativo — que o Tiggo 5X Pro não traz. E a revenda. É essa a troca que o comprador faz.

Honda HR-V × Chery Tiggo 7 Pro Max — mesmo preço

Honda HR-V2027 · EXL 1.5 i-VTEC Flex CVTCAOA Chery Tiggo 7 Pro2025 · Pro Max Drive 1.6 TGDi
Preço FIPE (0 km)R$ 160.506R$ 144.785
Potência126 cv187 cv
Torque15,8 kgfm28,0 kgfm
CâmbioAutomática CVT com paddle shiftsAutomática de dupla embreagem (DCT) de 7 marchas
Consumo cidade13 km/l10 km/l

Mesmo patamar de preço, e o Tiggo 7 ainda oferece 187 cv (contra 126 do HR-V), duas telas de 12,3", teto solar e câmera 360° — itens que o HR-V topo de linha não tem.

E isso nem toca nos híbridos e elétricos que os tradicionais ainda não respondem na mesma faixa: o GWM Haval H6 HEV (248 cv, câmera 540°, head-up display, bancos ventilados, atualização por OTA), o Omoda 5 (pacote ADAS com 15 funções, som Sony, 8 anos de garantia de bateria) e o BYD Yuan Plus (elétrico, 449 cv, porta-malas dianteiro). Coisas que, há dois anos, nem existiam nesse preço.

A conta da revenda hoje ainda premia quem já tem nome. Mas o brasileiro tem memória curta pra desconfiança quando o produto entrega — e os chineses estão entregando. Se mantiverem qualidade e rede por alguns anos, a lista de quem "segura valor" pode ganhar sobrenomes novos. O 83% do Dolphin Mini lá em cima é o primeiro sinal de que dá pra virar.

Os que mais caem (o outro lado)

  • Renault Kwid — 67% em 2 anos: carro de entrada cai mais em percentual; quanto menor o preço, maior o tombo relativo.
  • Honda ZR-V — 67% em 2 anos: a exceção Honda. Caro, só a gasolina e de nicho — o nome não salva um posicionamento difícil.
  • Jeep Renegade — 64% em 3 anos.
  • Picapes recém-lançadas (Fiat Titano, RAM Rampage) e híbridos novos (BYD Song Pro e King): modelo e/ou marca sem histórico deixam o comprador do usado inseguro.
Lição: preço de entrada e novidade recém-lançada costumam custar caro na revenda.

Como pensar revenda na hora de comprar

  • Troca de carro a cada 2–3 anos? Revenda é dinheiro de verdade — aí Honda, Toyota e Hyundai pagam de volta o "pedágio" da confiança.
  • Fica muito tempo com o carro (6–8 anos)? A desvalorização pesa menos, e compensa aproveitar o que o chinês entrega de equipamento e tecnologia agora.
  • Se revenda te importa, evite pagar caro em modelo recém-lançado: espere o mercado assentar o preço.
  • E fique de olho: a régua da revenda está em disputa — os próximos anos dirão se os chineses entram nessa lista.

Metodologia e fontes

Cruzamos o valor da Tabela FIPE (referência de outubro de 2026) do 0 km com o do mesmo modelo usado — em geral o ano-modelo de cerca de dois anos antes —, dentro do catálogo de fichas do Carverso. A FIPE é a referência de mercado; o preço real de negociação varia conforme estado de conservação, procura e região. Os equipamentos citados vêm das fichas técnicas oficiais de cada montadora.

Fontes